2 de julho de 2017

a encruzilhada é meu guia...


a encruzilhada é meu guia. “Nada me faltará”. as ruas me cortam e me levam com elas. o destino dos joelhos seguem o avesso dos pés. nada que não passe de retravés é digno de desvio. o chão é o senhor de todos os passos. o chão acolhe as pessoas quando se tornam restos. todas as pessoas se compõem para o fim. todas as pessoas são um resto. gerar um filho é aumentar o nada. o nada tem voz nos pulmões do absurdo. eu sou um absurdo.

a encruzilhada é meu guia. “Nada temerei”. a tarde queima crepúsculos nos tortos caminhos do dia. o dia é pôr do sol. a noite entra no recanto da luz. a noite insiste na escuridão luminosa das estrelas. as estrelas caem controversas no caminho do mar. as estrelas aquecem a rota para o eixo quadrilátero do assombro. o assombro reconhece o rosto dado ao tapa. o tapa investe na precisão dos dedos. o tapa reveste a pele de tangência. eu sou um tapa.

a encruzilhada é meu guia. “Tu estás comigo”. sozinho faço prece ao desconhecido. sozinho concebo fé a quem pediu por mim. sozinho percebo. sozinho. percebo. a luz entope de fôlego o estômago vazio. o estômago se enche de si na alegria da fome. o estômago come o corpo por dentro. o corpo introjeta o chão. a fome irriga a vontade de mais nervos. as bocas reagem ao fascínio do engasgo. o escarro assalta a trajetória da cara. eu sou um escarro.

a encruzilhada é meu guia. habitarei na tua casa por longos dias. dou aleluia ao festejo da véspera. o adeus me fertiliza de mãos ao vento. o pôr do sol é mais alguém. ninguém diz onde a sombra resvala. ninguém fala de onde reluz o poente. o escuro é grande e assalta o dorso de quem anda na contramão do presságio. o presságio contagia a luz de outroras. o quando é mais um porém na contradição do tempo. o tempo é uma encruzilhada. na encruzilhada me guio “todos os dias da minha vida”. amém.

fábio pessanha

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