30 de novembro de 2017

Pipoca e poesia marginal: uma tarde com "Cacaso na corda bamba"

Olha aí, pessoal! Quarta-feira (06/12) é dia de cinema e poesia!! Vai rolar na Biblioteca Parque de Niterói, a partir das 16h, a exibição do documentário "Cacaso na corda bamba" e logo a seguir haverá um bate-papo com os diretores do filme José Joaquim Salles, PH Souza e este poeta que vos escreve! Então, galera, prepara a pipoca e bora participar com a gente dessa conversa maneira!!

Ah, espalha aí a ideia!!! Vem junto!!



13 de novembro de 2017

Poema para "Soneto de fidelidade" do Vinícius



Desde a porta entreaberta, quando a luz
acesa no meio do sol levava a fúria

fálica para os escuros do corpo,
só se queria a mão quente sobre a pele,

os pés colados num projeto de passos
para o infinito, mas o infinito

só existe no poema do Vinícius,
enquanto dura o poema do Vinícius, que fala

de uma eternidade que só é infinita durante os
precipícios dos amantes se amando. O eterno

só dura na distância. O eterno
é mais lá que aqui. O pra sempre

só existe pelo aceno da dúvida,
na contramão das noites, nas intermináveis luas;

aquelas onde esquecemos nossos olhos
e com as quais brindamos o brilho

largo da luz para fora da vontade
de inventar risos num desejo.

Nenhum poema do Vinícius é
tão eterno quanto o tempo. Todos os dias

se recobram os joelhos do chão, todos
os zelos são expostos; todos encantos,

penetrados na nuca daquele instante
que seria infinito se não acabasse durante o risco

de se querer que todo interminável momento fosse para sempre.
Trago nos olhos a imagem perdida

da tarde, revirada na trama de corpos
num alarde, cujas sombras principiam

o tombo na mortalidade luminosa
da chama. Quentes eram as figuras

que se moviam nesse incêndio. Sólidas
eram as asas de quem voava rumo

ao declínio de todos os poentes,
a fim de lembrar da agônica canção:

“De tudo ao meu amor serei atento” desde
o gesto que me esfacela até

o tapa que me revela cadente das horas
longas de um dia erguido ante a porta

entreaberta, por onde a luz destina o facho
a luminar ruas descobertas pela fuga

“em cada vão momento” de quando
se possa dizer ser eterno aquilo

que só existe no poema do Vinícius, que é infinito
enquanto dura, que estilhaça a ranhura em superfície

cinzelada a retalhos e que cada atalho
me leve ao ínfimo pendor

traduzido na ruga irrompida
pela dor de quando toda minha

dureza entrar por seus atropelos e se fizer

no repentino momento do seu fim.

Fábio Pessanha

12 de novembro de 2017

Passagem do meu livro "A hermenêutica do mar - Um estudo sobre a poética de Virgílio de Lemos"


"O grito mineral da carne é o clamor da terra embebida de sangue e cravada de pele, da pele da história de quem suou e remexeu o chão nas culturas, de quem pisou e deixou suas pegadas na memória telúrica, de quem morreu e teve sua vida renascida nos frutos da colheita. Colher é ser histórico na medida em que não há revisita a fatos passados, e sim acolhimento daquilo que se apresenta no ato de uma experiência. Afundar as mãos na terra não é olhar para trás e imergir em recordações, mas trazer para a presença aquilo que se dá no exato momento de sua evocação, e esta é nossa relação com um poema: de presença. Memória é fundamentalmente presença do que se vela." (p. 107)


O trecho acima é parte da interpretação que fiz do poema “Ouamisi”, que segue abaixo:

Será desta luz d’equinócio o manto verde azul
quem te confere teu ar de canto singular?
Será que o mistério vem mais da luz iridescente
que de tua alma errante em busca da vertigem?

Etiópia Sudão Novo Mundo e Extremo Oriente
escravos e canelas, baixelas de prata bordados.
Será que posso falar de omnipresente osmose
entre o sagrado e o grito mineral da carne?

Efebos e mulheres, conquistadores e naus
entre o simulacro de uns, de outros a firmeza,
neste santuário de almas, a génese irrompe

como se o génio da memória e da paisagem
se beijassem na imediatez do que reclamo
e do oceano imprevisível, nascesses tu, ilha. 

(Virgílio de Lemos, do livro Para fazer um mar, de 2001)


Então, pessoas, quem quiser um exemplar do meu livro, é só entrar em contato, e a gente combina!

29 de outubro de 2017

Minha participação na escamandro

Ando um pouco atrasado com as atualizações do meu blog, mas, olha aí! Antes tarde do que nunca, trago pra cá também os poemas meus que foram publicados na revista escamandro:

corpo abraça infinito
se descobre ínfimo
em tudo que é nele

em tudo que há nele
é ele de dentro a dentro:
íntimo de nascenças

***

ossos

o andor ungido a ossos
compõe procissões de joelhos ao chão
donde marcas deixadas se erguem
pelos poros pele afora

a curvatura
sina do que ante a reta se impõe
destina nos seios o desejo de bocas
retira dos becos o realejo dos sonhos
para ornar em textura óssea
os dentes da primogênita mordida


Pra quem quiser conferir a postagem na escamandro, é só chegar aqui: https://escamandro.wordpress.com/2017/09/28/fabio-pessanha/

3 de setembro de 2017

poema para um poema de ricardo domeneck


abstrai-se abstrai-se a cama
vazia abstrai-se o luto
abstrai-se o lampejo dos
seus pelos nos meus da minha
pele na sua fala-se às
escuras ama-se às avessas
moldam-se os lençóis nas curvas
de um corpo que não mais está
aqui que deixou um rastro
de presença na memória do
meu toque que acorda na fúria
de um pesadelo repentino
que deixa o dia anoitecido
nas horas de inverno abstrai-se
abstrai-se a abstenção cala
a forma fugaz da mão que afaga
a quentura vazia de um
lugar antes preenchido sente
a névoa oblíqua da presença
que um dia foi um corpo pesado
sobre o meu que um dia foi a
partilha de segredos a
olhos entreabertos pelo sono
que um dia foram as horas
de um filme interminável no
apartamento vazio abstrai-se
relevam-se os braços quando
não há mais pescoço para se
envolver as mãos quando não
há mais dedos para se enroscarem
em figuras indizíveis abstrai-se
o dia em que noites eram fuga
em que tardes eram ilhas
no meio de tantas palavras
ditas de tantas falas frias
abstrai-se abstrai-se o
firmamento das horas dos
instantes do fogo que ardia
lento durante nossas bocas
abstrai-se a lembrança de uma
abstração do que poderia
ter acontecido dos cabelos
que deixaram de amanhecer
largados em meu ombro que
não desceriam mais pelo meu
peito até o lugar em que serão
apenas um monte juntado
ao lixo abstrai-se abstrai-se
abstrai-se abstrai-se a
“celebração de tudo que é
incompleto”

fábio pessanha


18 de agosto de 2017

Rodas leminskianas de leitura poética


Galera, em setembro, vou fazer as “Rodas Leminskianas de Leitura Poética” na Biblioteca Parque de Niterói!!
Acessem o facebook para terem mais informações e se inscrever ou vão direto no link abaixo pra que a gente possa pensar e trocar umas ideias sobre poesia até ficarmos com a cara igual a do Leminski aí na foto!! Aguardo vocês!

Inscrições: http://bit.ly/2w33Y2N

6 de agosto de 2017

Paulo Leminski e as paisagens da poesia: uma leitura de "Limites ao léu"


Saiu na Revista Garrafa, nº 38, meu ensaio sobre a leitura que fiz do poema “Limites ao léu”, do Leminski! Foi um desafio transitar e costurar interpretações sobre as leituras que o poeta fez para o que seja poesia. Mas essa tentativa passa longe de uma elucidação que se pretenda determinar um conceito para poesia. É uma viagem, um salto, um mosaico que aponta para o incomensurável, para o nunca sempre quase de uma questão das mais importantes para o homem, porque o homem é um poema sempre a se escrever.

Então, quer ler todo o ensaio? Tá a fim de conhecer a galera que compõe a revista? Passa aqui, ó: http://bit.ly/2uX7JnL